Terça-feira, 16 de Dezembro de 2003

...recordando um Homem...

"A viagem fora demasiadamente longa e eu sentia-me cansado bem
como desejoso de chegar ao meu destino, só que eu não sabia exactamente qual era afinal de contas o meu destino, o local da minha chegada; ou seria partida ? Bem, a verdade é que já estava há demasiado tempo naquele local, não era que se estivesse mal, muito pelo contrário, mas sentia que necessitava de mudar de ambiente, de conhecer "novos mundos", novos locais, novas coisas ...

Tinha sido uma viagem cansativa, com os seus altos e baixos (mais baixos que altos) e ao mesmo tempo uma viagem feliz, com a companhia dos meus mais chegados e ao mesmo tempo também dos não muito chegados...

Porém, Deus assim o quisera e eu não tinha poderes para alterar a ordem das coisas, nem sequer poderes para pedir que essa mesma ordem fosse alterada: a vida é assim, apenas temos que nos sentir bem na pele que vestimos e ao ambientarmo-nos saber como "conviver" com os que nos rodeiam; foi isso que tentei fazer ao longo da minha vida e ao mesmo tempo tentar coexistir na mais pura paz Daquele que assim o determinou e eu...aceitei.

Até que chegou o meu dia de partir e se assim tinha de ser assim fosse ! "

- - - x - - -

Viveu uma vida plena: cheia de valores morais do mais elevado que eu já conheci; viveu no seio da sua família que defendeu até ao último dos seus dias; viveu a harmonia do bem em companhia com a doçura da paz, mas ao mesmo tempo da ordem e do respeito por si próprio e pelos outros; homem com H grande, respeitador dos seus deveres e dos seus direitos, nunca ofendeu e nunca se sentiu ofendido; sempre perdoou e talvez também tenha sido perdoado se de algum pecado o tivessem acusado...
Viveu conforme a vida que lhe foi proporcionada e aceitou que a mesma tivesse tido o bom e o mau que ele soube enfrentar e dar de si próprio na defesa do bem comum nomeadamente na defesa de todos os que dele dependiam.
Hoje, mais de 40 anos passados da data do seu último dia neste mundo, ainda sinto uma enorme saudade daquele que foi meu "amigo" muito especial, um amigo daqueles que nunca se perdem, daqueles que estão e para sempre ficam na nossa memória, daqueles que recordamos com muito amor e carinho, daqueles que lembramos com orgulho por terem sido "dos nossos" !
Hoje, ao vir aqui lembrar a sua existência, apenas quero prestar a homenagem que nunca lhe prestei, a homenagem de vos dizer o quanto gostei daquele homem que soube sempre indicar-me qual o caminho a seguir e qual o caminho a evitar; nunca me proibiu de fazer isto ou aquilo, apenas me dizia que pensava ser melhor para mim se eu o fizesse daquela determinada maneira: teve sempre razão, pois ainda hoje sigo os seus eternos conselhos.
Ao vir aqui lembrar, não o seu nome, pois não o conheceram e portanto o seu nome não interessa, mas sim a sua memória, pretendo apenas relembrar com amor aquele que representou para mim algo de muito especial, na medida em que tive o privilégio de assistir ao momento crucial da sua partida, ao momento muito especial em que ele deixou de existir fisicamente para passar a existir, para todo o sempre, na nossa memória, na memória que nunca nos deixará também até ao último dos nossos dias.

………………………………………………………………………………………………

Tinha eu treze anos quando ele acamou com uma dessas doenças que não perdoam, mas que ele aceitou, consciente da sua pequenez neste mundo, consciente que aquela era a vontade de alguém mais forte que toda a força desta vida, para aquém e para além desta que temos.
Durante dois anos houve momentos de dor e houve momentos de paz; nesses momentos mais felizes de paz, lá ia eu de mão dada com ele passear um pouco para aliviar a carga psicológica que ele sabia carregar e aguentar firme como uma rocha; pequeno de estatura, e magro para além da magreza da própria doença, ele dava aqueles passos com a firmeza de um homem que nada tinha a temer e tudo tinha a enfrentar; ele dava aqueles passos com a firmeza de um homem que não tem medo de nada, nem daquilo que ele já sabia ter de enfrentar um dia.
Os seus passos pequenos, mas firmes, faziam compasso com os meus, ainda pequenos também pela idade ainda de criança, mas sentia-me como que o guardião daquele homem que naqueles momentos estava à minha responsabilidade e isso dava-me uma grande felicidade por estar a seu lado; também eu tinha consciência da doença que o minava pouco a pouco, também eu tinha forças para enfrentar aquela estranha harmonia de paz que nos rodeava aos dois; uma paz diferente, um bem estar compartilhado e interligado pelas duas mãos que se davam uma na outra, como dois cúmplices conscientes do "crime" que estavam a cometer a bem da harmonia e da paz de espírito, pois era carinho o que nos rodeava e envolvia.
Mas o dia da partida (ou da chegada como ele dizia às vezes por brincadeira) estava próximo. E quando esse dia surgiu ele teve consciência desse facto e soube-o enfrentar com uma dignidade que ainda hoje respeito e sempre respeitarei.
Deitado na sua cama e eu sentado a seus pés ele me olhou: os seus lábios já muito finos, mas firmes, disseram: "Vai chamar a tua Avó". Corri pelo corredor e fui chamar a minha Avó que, como sempre (toda a sua vida), estava agarrada aos tachos no fogão de lenha; na cozinha pairava um cheirinho a sopa quente (Meu Deus, que saudades !).
"Bó.. o vô chamou-a."
Ela largou o fogão, limpou as mãos ao seu avental e dirigiu-se para o quarto onde ele estava; segui-a logo.
Ela entrou no quarto e eu fiquei à porta vendo.
Naquele momento, todo ele se transformou: na sua frente estava a sua Maria de todo o sempre, a Maria que sempre o acompanhou e que lhe deu as quatro filhas que ele tanto amou, a Maria que tantas vezes ele arreliou e ela perdoou. Na ombreira da porta eu assisti: a sua face pálida ganhou cor, os seus olhos pequeninos brilharam de plena felicidade e a sua boca se abriu com um enorme sorriso ( o maior e mais bonito sorriso de felicidade que eu já vi em toda a minha vida !) e disse: " Maria, senta-te aqui."
Minha Avó se sentou à cabeceira da cama e ele com o mesmo sorriso disse já numa voz mais apagada: " Abraça-me."
Minha Avó o entrelaçou e eu vi os seus olhos pequeninos fecharem-se para todo o sempre, acompanhado com aquele sorriso lindo de felicidade !

Devia-te esta homenagem, Avô !

O teu neto Joaquim
publicado por quim às 10:43

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14 comentários:
De quim a 23 de Dezembro de 2003 às 10:59
...obrigado Sky pelas tuas palavras neste meu blog...
De sky... a 23 de Dezembro de 2003 às 00:11
Sabes... Eu um lobo... Chorei...devagarinho!! Deixei correr uma lágrima teimosamente arreliadora... Teimosamente silenciosa... Fez-me lembrar q nunca conheci os meus avós... e grande HOMEM deveria ter sido o teu!!... PARABÉNS!
De quim a 20 de Dezembro de 2003 às 10:45
...to betania: ainda bem que és uma "Jacinta"; é sinal que somos "iguais" em alguma coisa, né? Um beijinho e obrigado tb pelas tuas palavras.
De betania a 20 de Dezembro de 2003 às 01:17
O meu bisavô era Jacinto. Daí, todos nós somos conhecidos por "Jacintos" cá na terra.Temos orgulho em sê-lo, é quase um "brasão", embora
humildes. Até minhas filhotas lutam entre si, para ver quem é mais "Jacinta" porque ser "Jacinto" é
sinónimo de caracter, persistencia e presença!
O meu avô materno q era o meu ídolo, tinha a tal
alma de "Jacinto" que conseguiu transmitir-me e
ainda hoje, ao ler-te, a vista se me turvou e a voz tremeu de emoção ao recordar aquele ser de estatura pequena mas tão grande de coração e valor...tão destemido, tão sábio, fazia contas e
nunca andou na escola, nem o nome sabia escrever.
Quim, agradeço-te a homenagem q prestaste ao teu
avô pq tb me revi e revivi nela.
De quim a 19 de Dezembro de 2003 às 12:02
...Obrigado Luís pelas tuas amáveis e sentidas palavras; recordar quem um dia foi "nosso" e que de ternura nos encheu a vida enquanto com ele palmilhamos o caminho, é sempre preciso fazer.
De Lus a 19 de Dezembro de 2003 às 03:29
gostei muito deste texto. para além de muito bem escrito, é uma homenagem cheia de sentimento. parabéns pelo texto e ao que ainda é o teu avô.

"Não foi ninguém de importante na sociedade de então, foi apenas o meu avô Jacinto" ... fez-me lembrar que aquilo que recordo com grande saudade da minha avó também são coisas muito simples... Se me permites...

saudade


Esta noite quero apenas agradecer
o arroz de cabidela
e a caldeirada de cabrito
que fazias como ninguém.
Quero apenas recordar o último beijo
que dei na tua pele fria
e todas as palavras que ficaram por dizer.
Quero oferecer-te todas as flores
que nunca te ofereci
e agradecer-te o sangue
e o sorriso ralhado que a todos unia.
Já não me recordo da tua voz,
mas não preciso de ouvi-la,
recordo bem os teus lábios
arqueados ao som duma brincadeira,
a gritar amor bem alto
quando ao silêncio estavas já obrigada.
Ninguém sabe, ou só tu sabes,
mas por vezes lembro-me de ti,
sinto saudades e vontade de te agradecer,
só não sei como faze-lo.
Sei que não posso chorar,
e não me custa não o fazer,
porque sei que sorris apenas
quando todos sorrimos,
como sempre foi.
Esta noite quero apenas dizer
que te amo com toda a poesia
que escreveste no meu peito
e com todas as flores
com que pode um neto amar.


Um abraço.
De quim a 17 de Dezembro de 2003 às 10:37
...obrigado Cris
...beijinho
De Cristina a 16 de Dezembro de 2003 às 22:29
Adoro ficar ficar horas por aqui a ler tuas histórias,sempre cheias de emoção,sensibilidade e amor....que coisa linda!quero te dizer que me senti honrada com tua visita lá no meu cantinho,serás sempre bem vindo,estou cada dia mais encantada com tua tamanha sensibilidade...Beijo com meu carinho...Cris
De quim a 16 de Dezembro de 2003 às 21:36
...não tenho dúvidas que "ele" continua a meu lado e a mão que um dia lhe dei, ele ma dá agora!...
De ventor a 16 de Dezembro de 2003 às 21:27
Uma linda homenagem amigo! O teu avô estará orgulhoso de ti! Ele continuará a pautar os teus passos e a dizer: "olá Quim"!

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