Terça-feira, 23 de Março de 2004

...o lobo uiva sobre o glaciar...

Levantou-se com um sobressalto, daqueles que nos erguem a coluna com uma inspiração sôfrega de desespero na garganta. A escuridão estava toda tingida de azul. Uma estranha luminosidade azul que vinha do lado de fora da janela. Espreitou por trás do veludo já velho e viu o vidro da janela quebrado, estilhaçado no canto inferior esquerdo. Tocou-lhe e automaticamente levou o dedo à boca, sugando o sangue do corte que acabara de sofrer. Um breve gemido de dor, frustrado de fúria. A lua tinha desaparecido, tinha deixado um buraco no céu. Sentiu um arrepio como uma corrente de ferro a mover-se no interior da espinha. Julgou ouvir ruídos, um estalar de madeira, ecos de passos atrás de si, o som das sombras... Voltou-se e tremeu. Não olhou sequer para si própria. O chão estava alagado, os pés descalços enregelavam-na. Ouvia uma torneira aberta, pingava lentamente, com o peso da tortura. Segurou a cabeça com as mãos, crispando os dedos entre os cabelos, tapando os ouvidos quase até ao limiar da dor. Correu para a floresta a sul da sua janela, engolida pelo redondo do uivo que suspirava por todo o lado à sua volta. Não se vestiu. Tudo continuava assustadoramente azul, os seus olhos ferviam e faiscavam, fazendo perguntas às estrelas ausentes. Correu num ritmo deslumbrante, na sua deslumbrante figura pálida. Se a víssemos em pausa, acharíamos a mais bela fotografia do mundo... Correu atrás do Lobo. Sonhara com ele durante 10 noites seguidas, um segundo mais cada noite, até que o sonho a puxou para dentro e ela foi ao seu encontro. Correu atrás do Lobo, dominada pela loucura. Gritava o nome do seu amor, como se chamasse por ele. Gritava, gritava, gritava... O Lobo deixou de estar à sua frente, e surgiu-lhe pelas costas, quando vergou os joelhos e caiu no chão húmido. Tinha chovido nas horas anteriores, muito certamente. Arranhou a terra com as unhas como punhais. Sentiu um frio muito fino percorrer-lhe a parte de trás do pescoço, desde a nuca, descendo até à cintura. Depois um calor imenso a escorrer-lhe pelos braços. Tinha o Lobo por cima do seu corpo, num qualquer movimento extasiante, sentia-o roubar-lhe a vida ao mesmo tempo que a alimentava de eternidade. A escuridão torna-se tão intensa que explode em luminosidade. A noite quebra-se em mil fragmentos. Tudo inundado de azul, o olhar dela num fervilhar insustentável de paixão. Está um homem ao seu lado. Está frio. O branco tinge-se de vermelho. O chão absorve-lhe o sangue frio. Desce da pele glaciar tão suavemente como a mão ávida desliza sobre o gelo... O olhar ficou preso no infinito. Um gesto último de desespero suspenso na mão. E a boca entreaberta, no último suspiro com o nome do seu amor.


(este texto foi-me oferecido por uma amiga muito especial)
publicado por quim às 17:22

link do post | comentar | favorito
|
22 comentários:
De quim a 25 de Março de 2004 às 13:42
...to Vanessa: sou sim, com muito gosto :)*
De Vanessa a 25 de Março de 2004 às 13:11
Só uma curiosidade... és de Gaia?
De quim a 25 de Março de 2004 às 08:31
...to Alex: obrigado...volta sempre...abraço
De quim a 25 de Março de 2004 às 08:30
...to Stela: sorrio quando dizes que a bg se apropriou dele no fórun; este texto não é dela mas é tb de alguém que por lá andou... beijo :)
De Alex a 24 de Março de 2004 às 23:45
Descobri hoje ot eu blog. Gostei bastante. Irei voltar, seguramente. Keep the good work

Abraço
De stela a 24 de Março de 2004 às 23:13
Não são coincidencias...deixei o poema no fórum, há muito tempo atrás...e a bg apropriou-se dele. O poema está publicado, não me importei...Tudo OK*
De quim a 24 de Março de 2004 às 17:07
...to Lique: obrigado...um :) e um *
De lique a 24 de Março de 2004 às 16:33
Claro que fui ler o teu conto. Gosto muito da tua visão em que o fantástico se mistura com a sensualidade. Pelo caminho fui lendo outros textos teus da altura. Acho que vou ter que explorar mais este teu blog! Paixão, sensualidade, ternura... Boa combinação, Quim. Bjs.
De quim a 24 de Março de 2004 às 15:01
...to MWoman: obrigado pelas tuas palavras... os textos versam o mesmo tema e foram escritos por pessoas diferentes... no entanto, o cerne da questão está lá e em ambos (e que nada têm a ver um com o outro) a paixão parece ser a mesma... **
De MWoman a 24 de Março de 2004 às 14:13
Fui ler o teu texto para melhor comentar...está divinal...quem escreve o amor com esta paixão, só poderá amar de forma igual.Quanto ao da tua amiga gostei muito também...já o tinha lido ontem mas há alturas que ficamos sem palavras, não porque não sentimos ou não gostamos mas simplesmente porque às vezes é difícil comentar...Beijos

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Novembro 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. ...fim

. Apetites

. ...primeiro aniversário.....

. ...mudei para aqui:

. ...dá prazer ouvir...

. ...amar como o vento...

. ...upgrades...

. ...morreu...

. ...nave...

. ...adeus Fialho...

.arquivos

. Novembro 2006

. Junho 2006

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

. Dezembro 2003

. Novembro 2003

blogs SAPO

.subscrever feeds