Segunda-feira, 5 de Julho de 2004

...a ilusão do sonho...

O sonho pode conter ilusões mas extravasa-as por completo. O sonho é íntimo e essencial e não se vive por interpostas vitórias na ilusão do mais forte. Ele amplia-se no desejo de que o que é belo dessa essência íntima cresça nos sonhos de todos, todos de igual para igual, seus iguais, todos diferentes.
E depois de todo este torneio e de ter visto e terminado o jogo da final acho que estamos a crescer. A naturalidade com que a maioria dos meus jovens companheiros encarou o resultado sem que a tristeza os incomodasse e o modo como tantos mesmo com a derrota sabem fazer a festa é disso indicador. O povo português, por muitos que o não vejam está mais crescido. Bem mais crescido que os racionalistas cinzentões europeus.
Mais ainda porque enquanto ia vendo o jogo senti que estava a presenciar ao princípio do fim, para mim há muito anunciado, do que é o expoente social da negação do lúdico. A imperatividade da vitória mostrou a sua prisão ao passado, à não criatividade, ao ferrolho defensivo destruidor do jogo. As tácticas e estratégias destruíram completamente a beleza do prazer de jogar, tal a imperiosidade de ganhar. Van Basten disse-o já há anos quando anunciou que deixava de jogar porque jogar já não lhe dava prazer, amordaçado que estava a tácticas. Não há mais lugar à criatividade e espontaneidade. A necessidade de eficácia e de rentabilidade é retirar espaço, é a negação da espontaneidade e da beleza. O jogo desta civilização está a ruir. Como toda ela dá sinais disso, com os mesmos sintomas. É engraçado que quem lhe dá tamanha machada é a Grécia (treinada por um alemão, na lógica racional do poder da organização) – originária de uma cultura cujos esteriotipos de imagens sobre o corpo tem moldado há séculos com preconceitos estéticos que tanto têm afastado as pessoas do gosto de se sentirem bem nos seus corpos por não se reverem em imagens exteriores a si próprios que em si não colam.
Quando se vivem ilusões – vitórias por interpostas expectativas de afirmação de vaidades – quando surge a desilusão, procuram-se culpados para a derrota, a fuga mais fácil , e já nem se valoriza as alegrias que aconteceram . Até nisto parece que já estamos mais crescidos, bem mais que os históricos ingleses perante a derrota. E afinal aquilo que habitualmente se chama de realidade – diz-se: a realidade é competitiva e não sobrevive quem não se adapta – é afinal a ilusão.
Sonhar é perceber as alegrias e tristezas do ilusório e ir para além em busca da plenitude da vida.


(from: E. Cruz in a comment to
http://indeterminado.blogs.sapo.pt)
publicado por quim às 10:37

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