Sexta-feira, 9 de Julho de 2004

...Alice...

“Não! Não, Mãe; não quero morrer!”
E aquele “não” abafava tudo em redor; enxugava (porque já não havia mais) as lágrimas de quem estava presente; entorpecia a mais forte postura que se pretendesse ter. Aquele “não” soou-me nos ouvidos como algo que não fosse possível ouvir ou sequer gritar; como gritar um “não” que não se pode gritar?
Sentada na sua cama com a sua cor empalidecida de um branco lívido na sua cor mais próxima da morte, ela mantinha as restantes forças para gritar.
De seus olhos negros não saíam lágrimas, apenas deixavam transparecer uma segunda forma de gritar.
“Não! Não, Mãe; não quero morrer!”
Junto a ela, sua Mãe de nome Rosa, de alma retalhada e de coração destroçado, nada mais podia fazer do que abraçar sua filha Alice e dar-lhe um sereno sorriso.
Aquela mãe não chorava; aquela mãe estava serena mas por dentro explodia em milhões de pequenos gritos ao Universo, ao Deus que lhe ia levar a sua filha.
Os restantes familiares entreolhavam-se entre lágrimas e lenços húmidos.
Na ombreira da porta daquele quarto (com janela virada para oeste e por onde entravam os primeiros raios de sol daquele entardecer), o meu corpo tinha-se colado e em repouso se quedara ante tal pintura dantesca.
Senti a Morte ali presente e nada nem ninguém a podia afastar; nem o grito lancinante daquela moça de 26 anos de idade, minha familiar, de leucemia agonizava nos últimos momentos que eu sabia ali iria estar.
“Não! Não, Mãe; não quero morrer!”
Várias vezes esta agonia se ouviu daquele corpo dorido de tanto sofrer. Várias vezes este grito se fez ouvir saído daquele corpo consciente do momento.
Alice sabia que ia morrer; Alice sabia que estava a morrer. Não queria morrer. E sua derradeira amarra era sua mãe Rosa. Mas esta mãe nada podia fazer. Apenas manter um sorriso calmo naquela face.
Alice morreu ali, passados alguns momentos após seu último grito.
Expirou nos braços fortes de sua mãe.
Então depois, sua mãe chorou.
Alice, linda mulher que recordo com saudade, já não mora aqui.
Alice, linda mulher: teu grito, mais de 40 anos depois, ainda ecoa dentro de mim.
Hoje lembrei-me de ti.
Descansa em paz.


publicado por quim às 17:52

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10 comentários:
De quim a 14 de Julho de 2004 às 10:23
...to Nanda: é uma singela homenagem pelo grito que ela deixou em mim... **
De grilinha a 13 de Julho de 2004 às 16:40
Lindo texto de homenagem á Alice. A minha mãe era Alice que se fosse viva teria feito 77 anos no passado Domingo. Que descansem em paz as duas Alices
De quim a 11 de Julho de 2004 às 13:23
..to Henrique: é sempre doloroso "abraçar" a dor mas ela é necessária para manter o amor...
De quim a 11 de Julho de 2004 às 13:21
...to Anomalia: sim, eu sei; já me havias contado essa tua dor... entendo o que pode ter sido... há dor e há amor... há dor que não se esquece da mesma forma que há amor que também fica para todo o nosso sempre... resta-nos saber quais os limites... resta-nos definir esses limites e até onde podemos ir... **
De Henrique a 10 de Julho de 2004 às 23:03
Infelizmente (ou felizmente) para mim, sei perfeitamente do que falas. Mas ninguém que não tenha passado por elas imagina, realmente, as profundezas do sentir a que se mergulha nessas ocasiões.
De anomalia a 10 de Julho de 2004 às 22:24
Hoje quase não visitei ninguém, estou "dentro" de mim e não me apeteceu, mas vim aqui e li. Lobito, conheço esse grito, ecoou dentro de mim durante anos agora, já só é um sussuro que recordo de sorriso nos lábios - o mesmo sorriso, que mantive durante os 10 anos em que esse grito durou - Foi a escolha que fiz, a grande decisão da minha vida: ficar do lado do homem que amava, acompanha-lo no grito, apoia-lo e dar-lhe força com o meu sorriso. Fiquei Lobito e hoje, voltaria a ficar, nunca me arrenpendi: era o meu homem, o meu marido, o meu amigo e o pai do meu filho e por nada deste mundo, eu o teria abandonado. Li e compreendi o que escreveste. Um beijinho grande para ti.
De quim a 10 de Julho de 2004 às 10:28
...to SeiLá: a mistura de sabores e de saberes e de sentires: a vida é feita disso, dessa amálgama de coisas boas e de coisas más... **
De quim a 10 de Julho de 2004 às 10:26
...to Aran: pois, para que tentar esconder os gritos se eles existem?... estas lembranças vivem connosco e, por vezes, é salutar exorcisar os choros, os medos, as lembranças menos boas das nossas vidas... a vida não é só risos... **
De sei l... a 10 de Julho de 2004 às 01:27
Bolas!!! acabei (mm agora...)de abraçar os meus dois filhões acabadinhos de chegar num fds que demorava em vir e...venho aqui... ZÁS!! toma que é p'ra saberes, oh! dita SEI LÁ que isto...irra! tou escrevendo para espantar este aperto, este nó...esta misturada de sentires. Um beijo e um bom sábado!
De Aran_aran a 10 de Julho de 2004 às 00:47
Arrrre.... Oh quim desculpa-me a expressão... um um doce e suave beijo para apaguizar essas lembranças... esses tristes ecos...

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