Quarta-feira, 27 de Outubro de 2004

...amar como o vento...

"Em cada relação que começa, a vida e o amor renascem. A paixão coloca cada pessoa num ponto alto e excepcional, inevitável e imperdível. Gostosamente. Mas as pessoas no seu melhor vêm depois, às vezes muito depois, quando se chora e luta, quando se aceita e se resiste, quando se constrói e quando se acredita. As verdadeiras relações, os grandes amores são sempre virtuais. Não por serem irreais, antes por serem imateriais, apesar de nos darem a ilusão de um corpo, de um suporte material que tocamos e possuímos, que acreditamos nosso, real, físico, material. Sentimos amor, quase conseguimos tocar, agarrar essa sensação. Dizemos convictos que é real. Olhamos o outro nos olhos e parece real, parece que o outro ali está e nos ama mais que nós... Mas ver, sentir, tocar, são formas de aceder ao amor, ascensores, facilitadores. Difícil mesmo é planar. As relações são feitas de ar, planar. É no vento que se ama. Talvez ser o próprio vento, e não a folha. Vê-se melhor o que é amar quando é difícil amar, aceitar que é sempre mais do que improvavelmente, um esforço, um desejo, um empenho pessoal em algo que materialmente não existe, não é palpável nem mesmo se sente. Nunca se ama realmente, a realidade do amor é nunca ser real. Virtual. No dia a dia, corpo a corpo, sonha-se o amor, sonha-se um amor virtual, que se não for virtual não é amor. Virtual porque não depende da presença do outro, da aparência do outro, do comportamento do outro. Um amar que perdura e se sustenta (Vento) mesmo quando não vemos o outro. Amar é memória, antecipação e crença profunda em memórias que hão-de vir. Virar a cara a quem nos vira a cara, sabemos todos que é real, bem concrecto, mas não é amar. Ama-se mesmo quem não nos ama e nos quer deixar. É na paciência, na persistência que se mede o amor. Amar é escolher amar. Depende de quem ama e não de quem é amado. Depende do esforço e disponibilidade de quem ama. Ninguém merece ser amado, porque ninguém pode deixar de merecer ser amado. Não depende do mérito, não depende do comportamento, não se vê nem se comprova. Posso ter que silenciar, posso ter de partir... vai comigo o amor."


 


(autoria devidamente identificada)

publicado por quim às 11:20

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1 comentário:
De Nina a 27 de Fevereiro de 2005 às 22:12
Tinha que uivar a este texto. Não porque tenha a pretensão de saber tudo ou coisa nenhuma ou porque veja no autor(a) essa pretensão mas antes porque penso e sinto o mesmo acerca de...se existe um tema que me faça inverter marchas, reflectir, introspeccionar, cismar, repensar, analizar e até uivar é mesmo este sentimento mais antigo que o homem (vento), o amor, velho e eterno, intemporal e incondicional.
É bom navegar e encontrar lobos solitários, voluntariamente perdidos das suas alcateias que se/nos envolvem em reflexões válidas através das suas lobices...bem hajam todos. Bem hajas tu. A minha primeira visita, e agora não depende do que escreves, dessas tuas lobices o amor ao blog mas de mim e somente eu poderei arbitrar estas visitas, sim? Um bem haja.

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